A Catástrofe de 1967
por
Alberto Borges, Jurandir Ferraz de Campos, Luiza Rodrigues de Toledo Prado e Vera Felipe Malaquias da Silva
Textos extraídos do livro: SANTO ANTÔNIO DE CARAGUATATUBA
Memória e Tradições de um Povo
Organização e direção: Historiador prof. Jurandyr Ferraz de Campos
Pesquisador FUNDACC, 2000
O Município de Caraguatatuba, no Litoral Norte do Estado de São Paulo, assim como outras cidades litorâneas, está e sempre esteve à mercê de alguns fenômenos climáticos como longos períodos de copiosas e violentas chuvas, provocadoras de muitos estragos e grandes inundações.
Desde o século passado, do qual existe sobre Caraguá, farta documentação nos arquivos, são recorrentes as referências a grandes chuvas na região.
Eram raros os documentos desse período que não fizessem referência às chuvaradas do tempo das águas, causadoras de grandes estragos na estrada, particularmente no trecho da serra, inúmeras vezes inviabilizando o trânsito, com enormes prejuízos para todos.
Há um oficio ao presidente da Província, datado de 21 de Fevereiro de 1859, onde lemos: " ...devido aos repetidos temporais de pesadas chuvas, que há mais de um mês desaba em todo o Município, em especial um que houve no dia 20 de Janeiro, que por um pouco não arrasa Caraguatatuba..." Lemos em Olga Cruz um fato semelhante a esses acontecido em 1944.
1967
Cada pedaço de terra de um bairro desta cidade poderá ter sepultado vários habitantes, transformando em um grande cemitério. Muitos corpos jamais foram encontrados, principalmente aqueles que foram arratados para o mar e impelidos pelas ondas para pontos bem distantes.
De acordo com o posto da Fazenda São Sebastão ou "dos Ingleses" os níveis pluviométricos, no mês de março, registraram um índice máximo de 851,0 mm - sendo 115,0 mm no dia 17(março de 1967) e 420, 0 mm no dia seguinte, não acusando índice maior devido à saturação do pluviômetro.
O Rio Santo Antônio, que corta a cidade alargou-se de 40 para 200 metros.
Familias inteiras dessa pobre gente ficou soterrada sob toneladas de lama, sem que se saiba, até hoje, quem eram as pessoas, ou que nomes tinham!
Falou-se em 500, mas sabe-se que foram muitos, muitos mais...
"Caraguatatuba esta submersa e isolada de todos!"
No dia 18 , às 13 horas, veio a avalanche total de pedras árvores e lama dos morros Cruzeiro. Jaraguá, Jaraguazinho, próximos a cidade. Às 16h30, outra frente abria-se no Vale do rio Santo Antonio e este alargou-se de 10-20m para 60-80m.
No bairro Rio do Ouro, gigantescas barreiras começaram a cair pela manhã, formando uma enorme represa que estourou algumas horas mais tarde, desaparecendo com o bairro e provocando o deslocamento da ponte principal do rio Santo Antonio. Caso não tivese acontecido esse deslocamento, a cidade inteira teria sido inundada e coberta pelas águas. A estrada da serra, em sua maior parte , foi destruída, não sendo possível reconhecer seu antigo traçado em muitos trechos, onde se formaram precipícios de mais de 100 m de profundidade.
A Estrada de Ubatuba sofreu quedas de barreiras nos trechos de Maranduba, Jituba, Sumaré, Prainha e Martim de Sá, recobrindo seu leito em 0,80 m de lama.
Um balanço da situação em 21 de março de 1967, apresenta o seguinte quadro:
1) 30 mil árvores desceram as encostas do morro e se espalharam em volta da cidade.
2) 5 mil troncos rolaram e soterraram casas, destruindo parte da BR-6.
3) 400 casas desapareceram debaixo da lama.
4) Um ônibus lotado de passageiros desapareceu e vários carros ficaram isolados.
5) Na Fazenda São Sebastião havia dezenas de mortos e feridos.
6) 3 mil pessoas, aproximadamente, perderam suas casas.
(Nota: o Município contava com 15 mil habitantes).
9) 120 mortos já haviam sido encontrados.(O número exato de mortos não poderão jamais ser computados, pois dezenas de pessoas desapareceram, não restando vestigios).